Em tempo, tempo, tempo
Meus destaques das leituras de dezembro
“É certo – dezembro. Chegamos
às conclusões.”
Ano passado. Júlia de Carvalho Hansen
Pra ser sincera, dezembro chegou e passou num soluço e não tive lá muito tempo ou cabeça para chegar à conclusão alguma.
Ainda assim, tentemos concluir o ciclo das leituras de 2025 com os livros que conseguiram capturar a minha atenção arrebatada em dezembro por bolos de aniversário, rabanadas, panetones e espumantes.
Ano passado
Comecemos por um livrinho que estava entre os lançamentos mais aguardados por mim para o ano de 2025 e que reservei especialmente para me debruçar sobre em dezembro: o novo livro de poemas da júlia de carvalho hansen , Ano passado. Leitura oportuna para períodos de transformação, de transição de ano e de ciclo, de revisão do que passou, do que poderia ter sido e do que ainda há de ser.
Ano passado é o calendário poético de um ano atravessado por uma escritora “feita de carne e de curiosidade” dada a colecionar “sentimentos incolecionáveis”. Adotando um formato que remete aos diários, Júlia convida o leitor ao segredo e à cumplicidade, e confessa:
28 de junho
Sempre acreditei nos diárioscomo o melhor gênero dentro da ficção.
Porque quando eles tocam o tempo
o que permanece
são as lacunas
que o absurdo repete.
Tocar o tempo, talvez um dom reservado aos diários, à poesia e à oração. Ano passado é a Oração ao Tempo de Júlia Hansen. Ao som do seu estribilho, vivenciamos os “elementos, as catástrofes e as gêneses” do que pode ser o nosso hoje, ontem e amanhã.
Nos tempos em que vivemos, a cada ano experimentamos um novo anúncio do fim do mundo, do fim dos tempos. Não à toa estamos nos primeiros dias de 2026 e já presenciamos com espanto bombardeios sobre nossos vizinhos. Desse jeito, fica difícil “achar mais fôlego do que tristeza” para enfrentar um novo ano:
10 de setembro
Tento respirar na falta de ar
da cidade em que nasci e existo
no país em que estou e resisto
molho as plantas duas vezes por dia
pensando que se não estivesse tão seco
talvez elas também aprendessem a chorar.
Um pedaço de mim faz a sua parte
regar as plantas, tentar respirar
achar mais fôlego do que tristeza
encarar que o nosso destino chegou
acontecendo em chamas, ondas de calor
fumaça da Amazônia virando pasto
toda uma sorte de alergias e desesperos.
Se alguém pudesse nos salvar do irremediável
da destruição enquanto espécie
seriam elas
as plantas criam o ar
por onde agora flutuam em restos
carbonizadas no céu se desfazendo
em fogo, em cinzas
tanto no meu como no seu
pulmão e planeta.
No futuro que a poeta prenuncia, “Seremos em breve/ todos Ulisses/ buscando a Terra/ pra regressar”.
Mas um ano guarda muito tempo, guarda todos os tempos. Mudam-se as estações, mudam-se os tempos e as vontades. Num ano cabem fins, mas cabem também começos. Um novo amor quem sabe, novas formas de atrasar o fim do mundo:
2 de março
Quando a gente se encanta uma pessoa
pela outra a gente se encanta pela pessoa
e por uma semântica que vem sendo criada
em comum uma língua ou uma hélice
helicoidal bem úmida uma coisa meio
mágica meio DNA que fica girando
em torno de você e da outra pessoa
e que as palavras (por serem nossas,
da espécie) contornam e dão contorno
como um bambolê invisível e sutil
as palavras rodopiam vêm pela cintura
dando uns arrepios no baixo da lombar
a gente se encanta pela mágica vocabular.
Aí passa muito tempo – e depois de muito tempo
às vezes a mágica virou uma semente
às vezes um rito de passagem – um rio
uma enumeração sem precedentes
a porta batendo a estrada chamando
o medo do depois ou a revolução
chamada também de amor.
Um ano (o tempo) é mesmo feito de tudo junto e misturado. Embora mensuremos o que passa em dias, meses, estações, anos, uma coisa não vem depois da outra terminada. O tempo não espera:
18 de abrilA gente tem a cabeça tão linearque até de mudança de ciclo a gente esperasem perceber esperar uma linearidade. Se esperaque o ciclo que começa só comece depois do outroterminar e que este ciclo termine antesde começar outro ciclo que começae termina depois do ciclo quecomeça a terminar.O ciclo mistura-se na terracom a água se faz o barrosão assim as mudanças de ciclo.Argila. Encosta. Lodo e musgo.O que a astrologia mais me ensinaé a estudar o tempo. E as pessoase as pessoas através do tempoatravés dos tempos são os astros.
Um ciclo pode começar no dia 1º de janeiro de 2026, como pode começar em pleno 4 de março, como o Ano passado da Júlia Hansen. O desta newsletter está terminando e começando em 4 de janeiro de 2026, ocasião em que aproveito o fim-começo para agradecer a todas as leitoras e todos os leitores que acompanharam a newsletter “Com mais delongas” no ano que passou.
Esse projeto foi um dos acontecimentos que mais me instigaram em 2025. Guardo com carinho e apego todas as trocas, comentários e reações recebidas ao longo do ano por meio dessa constelação reunida ao redor dos livros, solares.
Receita para o Ano Novo
Para falar de uma última leitura, meu último livro lido e finalizado na reta final de 2025, retomo dois fragmentos do Ano passado:
Que a beleza sobreviva
todos os dias
só acontece
sem esforço.
e
A raiz da metamorfose
está no descanso.
Pois bem, mais do que desejar a vocês muitas realizações, desejo que o novo ano seja repleto de momentos de descanso. Deixemos a beleza sobreviver na contemplação. Sendo assim, fica uma dica de leitura saborosa para o momento de metamorfose mais sem esforço (no sentido industrial da palavra) que a experiência humana pode nos proporcionar: a leitura de um bom livro.
Os sorrentinos, de Virginia Higa, traduzido por Sílvia Ornelas, é uma festa. Um livro espirituoso, muito bem-humorado, com personagens inesquecíveis. Difícil falar desse livro sem recorrer ao clichê, ao exagero, aos adjetivos mais gastos. Mas que livro bom!
Os sorrentinos são um tipo de massa criado por uma família de imigrantes italianos que abrem uma trattoria familiar à beira-mar em Mar del Plata, Argentina, e logo veem a sua receita fazer um sucesso estrondoso.
Com esse mote, Virginia Higa apresenta em seu romance de estreia um elenco de personagens que vão compondo, cada qual à sua maneira, como cada ingrediente e cada pitada em uma receita, um conjunto saboroso. Um livro caloroso, divertido, que vai te dar fome e sede de viver.
Para adiar o fim do mundo
Que tal uma retrospectiva da newsletter em 2025?


Se você perdeu alguma das newsletters ou chegou por aqui há pouco tempo, te convido a explorar um pouco do meu calendário de leituras do ano. Quem sabe você não descobre por aí um livro que vai te marcar em 2026:
Janeiro: Orbitando as palavras
Fevereiro: A melodia na espiral da memória
Março: O sarau do vivo
Abril: Cartas a um filho
Maio: A caminho da palavra
Junho: A montanha é movimento
Agosto: Na noite com a loba errante
Setembro: Se não nos falha a memória
Outubro: Pequenos fins e começos
Novembro: A poeta de passagem
E para complementar esta newsletter de dezembro, te convido a assistir o vídeo em que fiz a leitura de mais um poema de Ano Passado, da Julia Hansen, no Instagram.
Aproveito para registrar o meu agradecimento mais do que especial às editoras Relicário e Nós pelo apoio a esta newsletter por meio dos seus respectivos programas de parceria literária no ano de 2025.
Fiquei muito honrada e feliz com a oportunidade de rechear minhas listas de leitura e recomendar livros do catálogo impecável de ambas as editoras, que seguem nos surpreendendo a cada lançamento.


Prontas e prontos para as leituras memoráveis de 2026?
Que a gente siga junto por aqui.
Feliz Ano Novo, com todo o descanso e toda a beleza no novo ciclo. ✫
Abraço e até o último domingo do mês,
Sofia
Nesta edição, comento os livros:
HANSEN, Júlia de Carvalho. Ano passado. São Paulo: Editora Nós, 2025.
HIGA, Virginia. Os sorrentinos. Tradução Sílvia Ornelas. Belo Horizonte: Autêntica Contemporânea, 2025.
*Todas as fotos que ilustram a newsletter são de minha autoria (Sofia Botelho, 2026)
*Revisão e primeira leitura: Bruno Kajiwara
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Ownn... tem a velinha numa das fotos :) Sofia, fiquei bem curiosa para ler os Sorrentinos. Que venha um 2026 cheio de reencontros através de leitura. Bjos!
ah te agradeço! que texto legal!