A montanha é movimento
Meus destaques das leituras de junho
Em junho, um livro me atravessou.
Desde o princípio, na cabeça do livro, um pacto: as nuvens, a corça, o urso, as mulheres, o poeta, os homens e seus fantasmas e até mesmo os cogumelos com esporos por toda parte são narradores possíveis. A polifonia da montanha.
Afinal, na escala geológica, “as aldeias, os crânios e os tomates” são partes do todo, são o todo das partes, recebem as mesmas gotas da chuva mansa e da torrente impiedosa. Da força bruta. Um raio pode matar no ato “um homem e um punhado de caracóis”, como eu mato neste instante o pernilongo que pousa no meu braço que escreve.
Mas quando escrevo, quando canto, invoco uma “alegria de vinho doce” que move montanhas e faz com que tudo o mais também dance: nuvens, corças, ursos, mulheres, poetas, homens, fantasmas, cogumelos, caracóis e pernilongos. O sarau do vivo, para reverberar os versos de Adriana Lisboa que povoaram essa newsletter há alguns meses.
Para dançar em voz alta
Assim o vivo se apresenta no romance de Irene Solà: narradoras e narradores se alternam para contar a vida que pulsa na região dos Pireneus catalães. Uma quadrilha, ou quiçá ciranda, composta de todas as matizes do vivo: forças da natureza, bichos e habitantes dos bosques, moradores da vila, animais de estimação e de caça, personagens de histórias dos povos da região, assim como os soldados e os civis republicanos em retirada por aquelas bandas ao fim da Guerra Civil espanhola.
Pano de fundo e de superfície, as montanhas dos Pireneus protagonizam o romance, são guardiãs da memória, da história e da poesia de povos humanos, não humanos e sobre-humanos. São palco de suas relações, interações e assombrações. Viram nascer o amor de Mia e Jaume. Escondem as granadas e as armas que Cristina descobre em seus bosques desde menina. Fornecem as ervas e os cogumelos que as irreverentes Dolceta, Margarida, Eulália e Joana usam para curar doença, lançar maldições e puxar bebês. Abrigam os rios onde mulheres d´água esfregam roupas muito brancas. Compõem o cenário para turistas deslumbrados e são refúgio para quem perdeu a cabeça na cidade grande.
A montanha “é mais velha que a guerra, mais sábia que a guerra”, testemunha a força bruta que inaugura e perpetua conflitos, desavenças, violência contra mulheres — mães, filhas, amantes, esposas, viúvas, parteiras, curandeiras e raizeiras. Presencia tragédias (como não pensar em Juliana Marins?), catástrofes naturais, ataques de ursos, morte de homem por golpe de raio e de rapaz por tiro perdido de mão amiga. E, como a montanha abarca todo o tempo que existe, é também lar para aqueles que morrem e não vão embora.
Ainda assim, há tanta vida na obra de Irene Solà. Assistimos ao nascimento de corças e de bebês, às brincadeiras de crianças com cebolas e cachorros, às celebrações dos povos da região, que se vestem de urso no início da primavera durante o festival de Prats de Molló, cobertos de fuligem e óleo de girassol, e dançam ao semear os campos de aveia.
Porque a montanha deixa ver que não há princípio nem fim, que a eternidade é “coisa leve. Coisa diária, coisa pequena”, vida e morte estão entrelaçadas em cada um dos capítulos, sob o ponto de vista daqueles que compõem a sua polifonia. No centro do romance, é a montanha que toma o discurso, pede que a deixemos dormir:
Agora me deixem dormir tranquila, crias desgarradas, ervas daninhas, tempestades esquálidas, árvores tristes. Vieram outros, sempre vêm outros como vocês. Para fazer ninhos e tocas, e repenicar seus cascos. Fazer crescer brotos verdes das árvores partidas. E as minhas encostas, e os meus cumes, e minhas cristas serviram de novos esconderijos, meus desgraçadinhos, tão miseráveis.
Embora dormente, a montanha é também lugar de metamorfoses, porque o movimento está na sua origem, no seu cerne. Nela, homens viram ursos, boneco de neve vira criança, morto vira aparição, menina vira mulher e mulher vira montanha.
Só o poeta pressente esse movimento, o convoca. Canta a montanha, canta a sua história, a história dos seus. O capítulo dedicado ao personagem Hilari – poeta, filho, irmão, amigo e fantasma – aquele que “fala tanto que faz crescer até orelhas nas cebolas”, é uma bela arte poética:
Às vezes, canto os meus poemas. De brincadeira, para experimentar. A poesia é jogo, também. O poeta precisa ser brincalhão. A poesia é uma assunto sério, dos mais sérios que há. Mais sério que a morte, que a vida e que tudo. Um assunto profundo e vital. E, por isso mesmo, é preciso saber brincar, e saber rir, e entender de ironia.
Fui mesmo atravessada pelo romance de Irene Solà, pelo seu elenco diverso e espantoso de personagens, pelo equilíbrio entre a dor e o humor. Uma prosa cativante e saborosa em coro de vozes que convocam a dança – e aqui aproveito para saudar o trabalho de tradução do catalão realizado por Luis Reyes Gil.
Um romance que dá gozo na leitura, aquele ímpeto de ler em voz alta.
De cantar, com alegria de vinho doce.
Outros cantos
Alguns destaques extras:
Falando de cantos, tanto de sons quanto de lugares, aproveito para recomendar a newsletter Nevoeiro , da Carol Bensimon, em especial a última edição “Um estudo sobre o som e o silêncio”, um exemplar perfeito da Nevoeiro. Em seus textos por lá, a Carol compartilha a jornada de escrita em diálogo com a paisagem singular de Mendocino, na Califórnia, onde habita junto a ursos, corujas e sequóias-vermelhas.
Um abraço e até o próximo mês,
Sofia
Nesta edição, comento o livro:
SOLÀ, Irene. Canto eu e a montanha dança. Tradução de Luis Reyes Gil. São Paulo: Mundaréu, 2021.
*Todas as fotos que ilustram a newsletter são de minha autoria (Sofia Botelho, 2025)
*Revisão e primeira leitura valiosa: Bruno Kajiwara
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<3 acabei de ler o capítulo de Hilari. que coisa mais linda esse livro!
Separei Irene Solà pra ler e ainda não consegui. Depois de seu texto, sei que vou saboreá-lo em pequenos goles.