Orbitando as palavras
Meus destaques das leituras de janeiro
Está dada a largada.
Não que esta primeira mensagem seja um convite à corrida. Pelo contrário, inauguro aqui um espaço para quem gosta de andar devagar quase parando em palavras demoradas, nas entrelinhas de um livro, na pausa de um poema.
A ideia é lançar no último domingo de cada mês um compilado com destaques das minhas leituras e o que mais fizer sentido no de-correr do caminho. Devagar e sempre.
E vamos então, começar do começo, com as leituras de janeiro.
A primeira leitura do ano
Desde que Orbital, da Samantha Harvey, foi selecionado como finalista do International Booker Prize de 2024, premiação da literatura de língua inglesa, a obra entrou no meu radar. Em primeiro lugar, dado o meu interesse pelo tema da vida, do universo e tudo o mais. Quando o romance foi o vencedor da premiação, decidi que seria a minha primeira leitura de 2025. Aproveito para dar a boa notícia: a editora DBA anunciou que lançará a obra em português este ano.
Orbital narra um dia na vida de seis astronautas — e cosmonautas, termo preferido pelos navegantes espaciais russos — na Estação Espacial Internacional. Em um dia na Estação, os astronautas completam dezesseis órbitas ao redor da Terra. Nesse intervalo de tempo absurdo (para quem está “com os pés no chão”), acompanhamos os astronautas em contemplação meticulosa do planeta e de si mesmos.
Seus sistemas de valores, sonhos, crenças, angústias e ambições, tão diversos e, em simultâneo, apenas facetas de uma mesma espécie, são refletidos na geografia em trânsito do planeta que sobrevoam, no lixo espacial em órbita, na missão em direção à lua lançada nesse mesmo dia. Curioso que, enquanto eu terminava a leitura, deparei-me com a notícia de que a lua foi incluída, pela primeira vez, na lista de patrimônios em risco da World Monuments Fund.
É muito bonito o romance-ensaio-valsa espacial de Samantha Harvey. Particularmente em sua prosa cristalina e no que indaga quanto à capacidade humana de sonhar, testemunhar e fazer arte. A necessidade de ajustar a perspectiva, prestar atenção e estranhar a nós mesmos, seres que fazem listas, como as que a astronauta Chie espalha nos seus aposentos espaciais:
Coisas reconfortantes:
A Terra lá embaixo
Canecas com alças firmes
Árvores
Escadas largas
Peças de tricô para a casa
A cantoria da Nell
Joelhos fortes
Abóboras1
Em tempos de crise climática e em face mais do que nunca do poder (auto)depredatório da nossa espécie, o olhar apaixonado de Samantha Harvey para o nosso planeta e para os seus seres, em particular o animal que contempla a Terra em sua órbita, um “animal que não apenas testemunha, mas que ama o que testemunha", parece um desatino.
Um desatino necessário.
Palavras demoradas
Este mês estive na companhia dos versos da Ana Martins Marques em Risque esta palavra (2021). Pretendo escrever mais sobre o livro, talvez no Instagram, mas compartilho com vocês um poema que me marcou:
Mais coisas reconfortantes
Por fim (embora seja ainda um início), alguns destaques extras:
A Adriana Lisboa retoma o seu trabalho de poeta este ano com o livro Antes de dar nomes ao mundo, já em pré-venda no site da Relicário.
Et cetera, uma das minhas canções favoritas lançadas no ano passado, do álbum De Lua, de Luiz Tatit com Ná Ozzetti.
Discurso de premiação da Samantha Harvey no Booker Prize:
Obrigada e boas-vindas a todo mundo que assinou a newsletter.
A gente se vê no último domingo de fevereiro!
Enquanto isso, fiquem à vontade para comentar e compartilhar impressões e leituras, no seu tempo.
Despeço-me com as flores do cosmos (para continuar no tema da vez) que floresceram na jardineira aqui de casa com a virada do ano.
Tradução minha. Segue o texto original (p. 48 da edição da Grove Press, 2023):
Reassuring things:
The earth below
Mugs with sturdy handles
Trees
Wide stairways
Home-knits
Nell's singing
Strong knees
Pumpkins




