Trovadora atenta
Meus destaques das leituras de junho
Ando um tanto aérea. Costumo desfrutar junho com presença: curto os dias frios, a luz difusa, o despontar das primeiras floradas dos ipês. Este ano tivemos até a visita inusitada da chuva em época de estiagem no cerrado brasiliense.
O clima e ambiência do mês costumam instigar a leitora que habita em mim. No entanto, parece que ela resolveu hibernar com a chegada do inverno. E está tudo bem. São fases que atravessamos como leitoras e leitores, de encontros e desencontros.
Ainda que tenha sido um período de poucas leituras, o único livro concluído no mês merece todas as glórias. Uma menina confronta os obstáculos aos seus desejos na ânsia de se tornar exatamente quem se é, e de quem veio a ser: uma das escritoras contemporâneas mais aclamadas da literatura em língua espanhola.
Sensual devoção
A quarta capa classifica A insubmissa, de Cristina Peri Rossi, como um romance de formação autobiográfico. Confesso que me alegra a editora não ter utilizado o termo corrente na publicidade literária, a autoficção. Mas já comentei sobre esse incômodo com o termo em outra newsletter dedicada a um romance de formação de uma escritora, Te dou minha palavra, da Noemi Jaffe.
Invenção e memória (ecoando o livro de Lygia Fagundes Telles) caminham juntas, siamesas. Ou para citar a própria Cristina, diante de qualquer problema ou situação, entre causas e consequências, fatos e soluções, o melhor é apelar para a imaginação.
E que imaginação a da menina que vemos retratada no romance, uma colecionadora de palavras e histórias, insetos e objetos, levando “uma vida aparentemente normal – ia à escola, fazia os deveres, subia em árvores, tentava destilar pétalas de rosa para fabricar perfumes, brigava com minha irmã, odiava meu pai, escrevia peças de teatro, escutava árias de ópera, tentava fabricar pólvora com uma fórmula que tinha encontrado em um livro, respondia aos mais velhos”.
O idílio da infância de Cristina é a temporada em que a menina foi morar com os tios que chefiavam uma estação de trem no povoado de Casupá. Correndo livre em cumplicidade com os animais no vasto e majestoso campo do interior uruguaio, de clima instável e imprevisível, dado a chuvas bíblicas remanescentes do dilúvio e a cheiros pungentes que confundem os sentidos, a menina desbrava um mundo habitado por minhocas, grilos, ovelhas, vagalumes, lagartixas, abelhas, borboletas, cachorros sem dono e “gente íntima, solitária, secreta e consubstanciada com a natureza”.
A temporada no campo de louvor à liberdade contrasta com o ambiente doméstico familiar na cidade e os primeiros embates com as regras, violências, usos e convenções sociais incômodos e arbitrários que regem o mundo dos adultos. Quando descobre que não pode se casar com a mãe, por quem nutre uma paixão e uma vontade de proteger, a menina compreende que os desejos, mesmo os mais justos e nobres, podem se chocar com a lei. A misoginia da figura paterna bruta e autoritária, das regras das roupas que meninas devem ou não usar, do tio que aponta que todas as escritoras de sua biblioteca (apenas três) acabaram por se suicidar, da representação da mulher na arte, ou da violência sofrida e da resposta absurda da mãe de que é melhor não contar, desperta a escritora insubmissa para o bom combate da palavra.
É assim que transforma os castigos paternos de confinamento em retiros de meditação, criação e intimidade e passa por uma formação íntima voltada à “religião dos sentidos”. Fiel aos seus desejos mais veementes (a menina indaga qual desejo não seria veemente), com muito humor e sagacidade, Cristina não se dobra. Confronta o mundo avesso à sua primeira paixão por uma colega de classe derramando-se em cartas. Torna-se uma trovadora atenta do amor, sua devota mais fiel e constante. Já adulta e com paixões vividas e escritas, conclui que mudar de amor é como mudar de dicionário, e deixar um amor, perder um dialeto.
A devoção de Cristina pelo amor e pela palavra (outro par siamês, ao menos em sua poética) irradia do coração aos dedos. Seu primeiro encontro com uma máquina de escrever tem toda a curiosidade, apreensão e arroubo de uma primeira experiência sexual:
Um dia, visitando a casa de uma prima que tinha se casado já mais velha, encontrei pela primeira vez uma máquina de escrever ao alcance das minhas mãos. Eu me aproximei animada, mas com devoção. Ela era preta, com o rolo grande, largo, as letras estavam lustrosas e tinha todas aquelas patas de gafanhoto que conduziam a letra até a fita de tecido que imprimia sobre o papel (era uma fita dupla, azul e vermelha). As teclas do piano também tinham umas pernas de madeira que faziam as cordas soarem. A devoção, o recolhimento e a animação fizeram as minhas mãos suarem. Eu não queria que meus dedos escorregassem, como acontecia no instrumento musical, mas imediatamente soube que a emoção era assim, a emoção ia do coração aos dedos, que tremiam, umedecidos. (...) Passei a tarde concentrada, pulsando a máquina de escrever, descobrindo seus segredos, como anos depois passaria dias, noites inteiras, tocando um corpo, acariciando sua pele, seus tendões, percorrendo suas entradas e suas saídas, assombrada diante do prazer, extasiada de que existisse e estivesse entre minhas mãos.
Saúdo o trabalho de tradução de Anita Rivera Guerra, que também nos brindou com um belo posfácio à edição. Nele, recorda que a autora uruguaia também exerceu o ofício de transladar o texto literário de uma língua a outra, comparando-o ao relacionamento amoroso. Nas palavras de Cristina, a tradução e o amor conduzem, “de maneira inevitável a uma simbiose na qual a fidelidade, a traição, a propriedade e a apropriação são mecanismos emocionais e apaixonados”. A tradução de Anita faz vibrar a língua portuguesa com a sensual devoção de Cristina.
Para as insubmissas:
Cristina Peri Rossi foi agraciada com o Prêmio Cervantes de Literatura em 2021. Na ocasião, apresentou um discurso cuja protagonista é a personagem Marcela, da obra-prima do autor que dá nome à premiação:
Dessa maneira, Cervantes dessacraliza a beleza como atributo feminino, e converte Marcela em uma heroína trágica: para conservar sua liberdade frente aos homens que quiseram possui-la, dominá-la, renuncia à vida social, isolando-se do mundo, escapando dos homens. De fato, essa heroína, posteriormente, seria qualificada como histérica, frígida e neurótica ao não assumir o papel que lhe relegava a sociedade patriarcal. A compreensão que manifesta Dom Quixote sobre uma personagem feminina real me fez pensar que a loucura pode ser um pretexto de exclusão daqueles que esgrimem verdades incômodas, lição que evidentemente aprendi, pagando um preço muito alto, até o dia de hoje, mas se voltasse a nascer, faria o mesmo. (tradução livre)
A Editora 34 publicou a antologia poética Nossa vingança é o amor, da Cristina Peri Rossi, que está na minha mesa de cabeceira para as próximas leituras. Ganhei a edição de presente do meu pai, quem primeiro se encantou pela obra da autora e me recomendou.
Por coincidência ou destino, descobri há pouco que hoje é Dia do Orgulho LGBT. Feliz que uma autora lésbica protagoniza a newsletter de hoje. Deixo um convite para quem quiser recomendar nos comentários obras de pessoas da comunidade LGBTQIAPN+.
Um abraço e até mês que vem,
Sofia
Nesta edição, comento o livro:
ROSSI, Cristina Peri. A insubmissa. Tradução de Anita Rivera Guerra. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2025.
*Todas as fotos que ilustram a newsletter são de minha autoria (Sofia Botelho, 2026)
*Revisão e primeira leitura: Bruno Kajiwara
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A qualidade desse texto é impressionante. Você além de inspirada está com a escrita em dia, Sofia. Eu lutei para me manter conectado às leituras nos últimos meses (e está tudo bem) lutei para me manter desconectado de redes sociais (graças a Deus) e pedi a Deus pra me conectar de novo com a essecia das coisas (e ele ouviu me trazendo aqui).
Seguimos, Sofia.
A antologia é muito boa, certeza que vc vai gostar