Pegadas imaginadas
Meus destaques das leituras de fevereiro
Tem livro que agarra a gente ali logo na primeira página e segura a nossa mão até a palavra final, com o molho das chaves certas para abrir cada porta. Outros não são tão complacentes. Deparamo-nos em um cômodo escuro, com uma vela na mão e pouca ou nenhuma instrução. Precisamos deixar os olhos se acostumarem ao breu.
Enquanto seguimos rumo ao próximo aposento e ao seguinte, não vislumbramos o todo. Um ou outro quarto tem a luz acesa, outros não tem mobília, no outro uma porta emperrada. Mas, quando nos vemos ao ar livre de novo, decorridos alguns dias, visualizamos com nitidez a planta daquela edificação, para onde retornamos e fazemos morada por vários meses.
Assim tem sido a leitura de Autobiografia do algodão, da Cristina Rivera Garza, livro que é o centro desta newsletter e que percorri nos primeiros meses do ano. Digo “tem sido” por isso mesmo, pretérito perfeito porque não acabado, leitura infinda, revivida tempos depois das palavras finais (as quais, no caso, para satisfazer a curiosidade, são: “E partiremos outra vez”).
A raiz plural de nossa habitação
Um livro sobre partidas e chegadas, uma longa tradição de caminhadas (ecoando Gloria Anzaldúa). Em Autobiografia do algodão, Cristina Rivera Garza segue as pegadas quase apagadas dos seus antepassados, que compartilharam com tantos outros um período marcado pela “opulência súbita e brutal, e efêmera” propiciada pelo cultivo do algodão na região de fronteira entre Tamaulipas, no México, e Texas, nos Estados Unidos, e que culminou em uma greve histórica, em Estación Camarón: “aqui houve uma greve que foi um júbilo”.
Uma greve da qual não se teria notícia não fosse um escritor, José Revueltas, que tomou parte no movimento e o documentou na obra O luto humano. Um escritor que reconhecia que, diante da “raiz plural de nossa habitação”, um mundo radicalmente compartilhado entre seres humanos, animais, plantas e pedras, é preciso testemunhar a vida de olhos bem abertos e “cumprir a palavra ardente de pertencer”. Autobiografia do algodão é fruto também desse encontro entre duas figuras que assumem a missão da palavra ardente. O encontro de Cristina com o livro de José Revueltas, e um ato radical de imaginação: Cristina imagina que seus avós estiveram ali, nas assembleias das quais Revueltas participou, certamente compondo a paisagem dos rostos severos dos camponeses indígenas que respiram e lutam nas páginas daquele escritor.
Socióloga e historiadora de formação, Cristina empreende uma saga por arquivos e documentos para recompor sua história familiar, deparando-se com a negligência criminosa da história oficial perante a população. Uma história apagada não só nos registros, mas na própria paisagem: no passado, coberta do “ouro branco” e da promessa do algodão; no presente, uma terra devastada pelo clima, pelas pressões do país vizinho e pelo narcotráfico, cidades-fantasmas.
A vertigem inicial provocada pelo livro (o quarto escuro) mimetiza o processo de pesquisa e escrita da autora diante da carência de informação presente nos arquivos oficiais. Os cacos da história fragmentada vão sendo colados, pouco a pouco, com pitadas de imaginação, de ficção — ferramenta que a escritora Saidiya Hartman chama de “fabulação crítica”, como mencionado por Cristina em sua participação na Feira Literária de Paraty de 2025.
Seguindo a tradição dos guachichiles, povos indígenas nômades que se recusavam a enterrar os seus mortos, carregando as cinzas em sacos de camurça amarrados à cintura (“Com eles, colados a seus corpos, seus mortos seguiam em movimento”), vemos em Autobiografia os corpos em movimento dos avós e pais de Cristina, e escutamos suas palavras ardentes.
Escutamos Petra, a avó que, em condições tão áridas (a falha primordial: a violência que atravessa gerações e fere avós, mães, filhas e irmãs) aprendeu a escrever. Testemunhamos, pela escrita, a conversa entre Petra e seus mortos, entre Cristina e seus mortos. Entre o México e seus mortos.
Afinal, toda autobiografia nunca é estritamente pessoal, mas fruto de uma genealogia que pertence a grupos inteiros, recorda Cristina. Em um mundo radicalmente compartilhado, recordemos as pegadas dos que nos precederam. E, se nos faltar os meios para recordá-las, basta que a nossa palavra ardente dê asas, ou pés, à imaginação:
Tudo o que nos precedeu nos marca. Toda marca de aparência pessoal tem uma genealogia que pertence a grupos inteiros. Esta é a história dos meus avós, fazendo seu caminho através de arbustos e acácias-amarelas, lama, cobras-cegas. Tempo. A história de como uma planta humilde e poderosa transformou a vida de tantas comunidades inteiras, até o próprio clima. A história de como, mesmo antes de eu nascer, o algodão me moldou.
— Cristina Rivera Garza, “Autobiografia do algodão”.
Tradução de Silvia Massimini Felix
Outras formas de fabular uma autobiografia
Não poderia deixar de mencionar mais uma leitura que marcou o meu fevereiro. Até porque também é um livro que trata de fabular a própria história, com boas pitadas de humor, melancolia e ousadia artística. Falo de Histórias reais, de Sophie Calle, recentemente publicado pela editora Relicário em tradução da Marília Garcia. Um pequeno tesouro, com 66 histórias e fotografias da artista e escritora francesa em fragmentos que combinam história pessoal e familiar, experimentação artística e crônica cotidiana, por uma artista que faz da vida ficção e da ficção, vida.
A foto carnavalesca é para não deixar a newsletter de fevereiro sem o seu toque de folia.
A leitura de Histórias reais é fruto do Programa de Parceria Literária da Editora Relicário, do qual tive grande alegria de participar em 2025.
Para seguir caminhando
Recomendo a mesa “Invenção, memória” da FLIP 2025, que contou com a presença das escritoras Cristina Rivera Garza e Maria Negroni, com mediação do Guilherme Freitas. Tem a mesa completa no youtube, com áudio original ou em português.
A Priscilla Brito , com quem costumo estar em sintonia, publicou um texto pungente sobre Autobiografia do algodão.
Não posso deixar de agradecer às queridas amigas Márcia e Shari pela leitura compartilhada de Autobiografia do algodão, graças ao nosso clube do livro informal e espontâneo.
Um abraço e até o próximo mês,
Sofia
Nesta edição, comento os livros:
CALLE, Sophie. Histórias reais. Tradução de Marília Garcia. Belo Horizonte: Relicário, 2025.
GARZA, Cristina Rivera. Autobiografia do algodão. Tradução de Silvia Massimini Felix. Belo Horizonte: Autêntica Contemporânea, 2025.
*Todas as fotos que ilustram a newsletter são de minha autoria (Sofia Botelho, 2026)
*Revisão e primeira leitura: Bruno Kajiwara
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