De ponta-cabeça
Meus destaques das leituras de julho
Na penúltima semana de julho, fiz uma breve viagem de férias com minha mãe. De malas prontas, gosto especialmente de escolher a leitura que vai me acompanhar no passeio. Costumo ficar horas vasculhando as estantes, ou decido logo por um título que tem a ver com o destino.
Desta vez, optei por um livro que havia chegado há poucos dias em casa: A estante dos últimos suspiros, de Aglaja Veteranyi. Não tinha muitas informações sobre ele, soube que fora escrito por uma escritora romena de expressão alemã, filha de artistas de circo, que deixou a Romênia ainda criança, no período do regime de Ceaușescu.
Pensei que o livro tinha o tamanho apropriado para o período da viagem e estava curiosa com o que vislumbrei ao folheá-lo, como quem espia o ensaio da trupe e já pode imaginar a corda bamba, o malabarismo, as chamas, os truques de vida e morte, o mundo de ponta-cabeça.
Beijar todos os mortos
Por força do destino, só iniciei a leitura no segundo dia de viagem, quando embarcamos no trem rumo a Morretes para o célebre passeio pela Serra do Mar. Não tivemos tanta sorte, o dia seria lúgubre, frio e chuvoso. Não era o clima perfeito para o passeio, mas certamente perfeito para o livro. A caminho dessa cidade que ecoa, em seu nome, os morros e a morte, a paisagem espectral das montanhas azuis tomadas pela neblina parecia ter brotado das páginas do livro.
O romance é uma elegia à tia da narradora protagonista, cuja doença e morte impulsionam um mergulho na sua história familiar. Sentimo-nos como se estivéssemos na cena de abertura, reunidos no velório da tia e auxiliando nos preparativos da coliva, o bolo à base de trigo cozido, com nozes e especiarias, servido em enterros e despedidas.
A lição máxima da perda da tia é que beijar um morto é beijar todos os mortos. O luto é, assim, ponte para a terra natal, para a história familiar e do país, para os antepassados e para os mortos vindouros. Para revisitar a relação sufocante da narradora com a mãe, com quem o diálogo era impossível, enquanto com a tia, a real figura materna, era possível conversar até em sonho, “numa língua sem língua”.
Para Aglaja, criada no estrangeiro, a própria língua materna só era depreendida dos cheiros na cozinha da tia, ou pelas canções de Maria Tănase. Escreve em alemão com um estilo de máxima concisão, palavras embrulhadas em silêncio, como ela mesma descreve. Aglaja reúne a vida e a morte em cada sentença da obra. Como em um número de circo, ou em suas fotografias de família: “Todas as nossas fotos de família pareciam números de circo, os enterros também”.
Filha de refugiados artistas de circo, a experiência da narradora é a de quem prende a respiração antes de cada fronteira. De quem deixa um pedaço de si em cada lugar. Suas amígdalas ficaram em Madri, a vesícula da mãe em um país na África. Desmembrada, apenas a sua pele entra no quarto da tia prestes a morrer, “eu e o medo não cabiam mais”. A pele é descrita como “demasiado comprida”, como uma camada externa, pronta para sair de si. Em um dos momentos mais comoventes, são os seus braços que despencam:
Meus braços se desprenderam das articulações e despencaram no chão, ao lado dos sapatos azul-marinho com estrelas prateadas.
Ela está usando o céu nos pés, pensei comigo.
Forçada a se acostumar com o trânsito, a narradora inventaria objetos como quem tem tudo a perder. São diversos os momentos em que lista as coisas que habitam os ambientes e as memórias familiares, em que as paredes pulsam e a casa é uma coisa viva. Escrever os objetos é sua forma de ler o mundo, e de subverter o mundo e a morte, como no episódio em que resolve colar a etiqueta, utilizada na casa de repouso da tia, em que se lia “Lanche da Tarde”, na mochila, no sapato, na tampa da privada.
O trem percorria a cadeia montanhosa e eu ainda estava em trânsito com Aglaja quando recebi uma mensagem no celular que tratava de uma amiga querida que nos deixou em 2024. O mais curioso é que eu havia tido um sonho com essa amiga na noite anterior. Até agora não assimilei tudo isso. Mas, talvez, Aglaja e sua tia estejam certas: beijar alguém que se foi é beijar todos os nossos mortos.
Programa de Parceria Literária
A leitura deste mês é fruto do Programa de Parceria da editora Relicário em 2026. É o segundo ano em que participo com a newsletter. É uma alegria desfrutar do catálogo primosos da editora e poder compartilhar as leituras por aqui com vocês.
A Relicário gentilmente disponibiliza um cupom de desconto para as leitoras e os leitores dos parceiros. Com ele, vocês têm 30% de desconto para compras no site da editora: PARCEIRORELICARIO26 . Aviso importante: o cupom não é cumulativo com outras promoções do site, como feiras de livros e pré-vendas.
Um abraço e até mês que vem,
Sofia
Nesta edição, comento o livro:
VETERANYI, Aglaja. A estante dos últimos suspiros. Tradução por Fernando Klabin. Belo Horizonte: Relicário, 2026.
*Todas as fotos que ilustram a newsletter são de minha autoria (Sofia Botelho, 2026)
*Revisão e primeira leitura: Bruno Kajiwara
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