Conviver entre espécies
Meus destaques das leituras de abril
Em abril, reencontrei uma autora que conheci por acaso, como costumam ser os melhores encontros literários, em uma livraria de Buenos Aires em janeiro de 2020. Naqueles dias logo após a virada do ano, não imaginávamos que dali a pouco enfrentaríamos uma pandemia. Eu vagava despreocupada pelos bairros e parques portenhos, abastecida de empanadas, medialunas e doce de leite, deparando-me com uma livraria a cada esquina.
Numa delas, um exemplar atraiu a minha atenção, seja pela arte de capa, seja pelo título curioso: El sol mueve la sombra de las cosas quietas, coletânea de contos de Alejandra Kamiya publicada pela editora Bajolaluna. Consigo lembrar do exato instante daquele encontro, a luz da rua atravessando a vitrine e acariciando a capa. O sol movendo a sombra daquele livro quieto. Comecei a ler ali mesmo.
A conexão foi tão imediata que na próxima parada em uma livraria arrematei Los árboles caídos también son el bosque, seu primeiro livro de contos. Lembro que devorei El sol mueve la sombra... durante aquela viagem, em sintonia com o tom e os temas caros à autora. O segundo repousou em minha estante e não cheguei a ler, talvez pelo medo de concluí-lo e não ter mais contos da Kamiya para desfrutar.
Todo esse preâmbulo para dizer da minha felicidade quando a editora Arte & Letra anunciou a publicação de A paciência da água sobre cada pedra, terceiro livro de contos da autora e o primeiro a ser publicado em português, com tradução de Rafael Ginane Bezerra. O título longo e reflexivo me provocou uma sensação de familiaridade que se justificou assim que li o nome da autora: Kamiya, você por aqui!
Olho no olho
Recordo que havia muito de contemplação naqueles primeiros contos de Alejandra Kamiya que li. Em A paciência da água sobre cada pedra, reencontrei a sua forma serena de observação do mundo, mesmo do que ele tem de mais insólito. Um olhar que se debruça sobre o que nos cerca. Não à toa uma de minhas passagens favoritas é a seguinte: “Antes de sair olhou detidamente cada coisa, deitando o seu olhar por todos os cantos, porque esse é o modo de acariciar uma casa e seus objetos.”
Nos contos de Paciência (apelido para o livro), um aspecto se sobressai: a interação entre os seres humanos e não-humanos. Macacos, cachorros, elefantes, touros, vacas, cavalos, garças, gatos e grous povoam as páginas. Ao dizer isso, vocês podem imaginar que o livro transcorre do lado de fora, em campos, florestas e pastos. No entanto, o ambiente das narrativas de Kamiya é majoritariamente o espaço da intimidade, do interior, da casa. Mulheres que convivem com cães, gatos, macacos e elefantes descobrem: refletir-se no olhar desses seres é a melhor forma de descobrir algo sobre nós.
Os animais não-humanos podem ser também a representação mais fiel de um sentimento, quando a palavra falha. No conto “Os Ensaios”, uma filha que cuida da mãe doente vê a noite transfigurar-se em um touro que a arrasta, enquanto de dia são vacas que pastam as horas de cuidado, tédio e apreensão. Kamiya revela o que há de mais terno ao mais estranho do convívio entre nós e outros bichos humanos e entre humanos e demais bichos.
O par presença-ausência parece instigar a autora, que inaugura o livro com um conto de ares pandêmicos. Em outros narra a nostalgia de um viúvo ao constatar que os tsurus formam casais para toda a vida, despedidas que não se concretizam e o terror de encontrar o fantasma de si mesma no banheiro, espaço da casa reservado a estar só. Em um de meus favoritos, a interação se dá entre os cachorros do bairro, até a ausência de um deles despertar reflexões caninas espirituosas sobre a consciência da morte.
“Nós duas gostamos do silêncio, mas sou sempre eu, a desajeitada, que não consegue passar por ele sem quebrá-lo”, diz a narradora, referindo-se aos diálogos com a sua gata traduzidos em ficção. Nós, humanos desajeitados, tropeçamos nas palavras, quando o que buscamos pode ser apreendido no mistério revelado por uma troca de olhares com o gato ou o cão com quem compartilhamos a passagem dos dias.
Bichos que amplificam a luz
A newsletter de hoje tem uma homenageada, aquela que me acompanha todos os dias: a Ponyo, ou Pompom, para os íntimos. Inclusive, recebê-la em minha vida foi outro encontro daquele ano de 2020, em geral tão desprovido de encontros.
Compartilho um poema da Adriana Lisboa (do excelente livro O vivo) que traduz lindamente o nosso convívio, em sintonia com a leitura do mês:
cachorro
a ciência ainda especula
se você distingue bem entre o verde
e o vermelho e o amarelo
e conta que no fundo dos seus olhos
há pigmentos que refletem e amplificam a luz
cento e trinta vezes mais
do que o olho humano
e que diante da tevê o que vê
é uma sucessão de slides
já que enxerga mais quadros
por segundo do que as pessoas
mas quando toco a ponta
do meu nariz no seu
e os nossos olhos se entrançam
não há ciência
talvez não haja nem mesmo história
o que vê a mulher
no cachorro e o que vê
na mulher o cachorro
por trás dos olhos do cérebro da memória
um fundo de mistério mais velho que nós
dois
bichos que refletem
e amplificam a luz
Outras palavras
Recomendo a entrevista de Alejandra Kamiya à revista cultural Jot Down, em que ela discorre sobre o seu processo criativo, referências e marcos da trajetória como escritora, e deixa pistas do próximo livro, que será o seu primeiro romance. Gosto muito das fotografias que ilustram a conversa. Destaco um trecho precioso em que ela explica sua preferência pelo conto:
¿Qué tiene el formato cuento que te atrae?
Primero, la concisión. La concisión no tiene que ver con la extensión. Cuando yo era chica, mi padre viajaba mucho y mi mamá siempre le pedía que le trajera algo que creo que no volví a ver; se llamaban extractos y eran perfumes muy chiquititos, concentrados. Y me parece que es algo así. Algo pequeño y concentrado me resulta mucho más atractivo que una botella de perfume.
(tradução livre)O que te atrai no formato conto?
Primeiro, a concisão. A concisão não tem nada a ver com a extensão. Quando era pequena, meu pai viajava muito e mamãe sempre pedia a ele para trazer algo que creio que nunca mais vi; se chamavam extratos e eram perfumes muito pequeninos, concentrados. E me parece que é algo assim. Algo pequeno e concentrado me parece muito mais atrativo do que um frasco de perfume.
Um abraço e até breve,
Sofia
Nesta edição, comento os livros:
LISBOA, Adriana. O vivo. Belo Horizonte: Relicário, 2021.
KAMIYA, Alejandra. A paciência da água sobre cada pedra. Tradução de Rafael Ginane Bezerra. Curitiba: Arte & Letra, 2025.
KAMIYA, Alejandra. El sol mueve la sombra de las cosas quietas. Buenos Aires: bajolaluna, 2019.
*Todas as fotos que ilustram a newsletter são de minha autoria (Sofia Botelho, 2026)
*Revisão e primeira leitura: Bruno Kajiwara
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Que delicadeza de newsletter e de livros! E viva a Pompom 🩷
Não conhecia Kamiya, quero também me surpreender como você ao lê-la. Seu texto também atrai pela delicadeza e pelo compromisso de mostrar detalhes e pequenos achados que tornam a vida valiosa. Pompom privilegiado.